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Amigos até que a sociedade os separe

Convidar amigos ou parentes para dividir as responsabilidades de um novo negócio costuma ser a opção de boa parte dos novos empreendedores. No entanto, a escolha de um sócio precisa ser bem mais criteriosa – e geralmente exclui laços afetivos

Erik Farina

O filme Rede Social, inspirado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich, conta a história da criação do Facebook, uma das maiores redes virtuais de relacionamento do mundo. Além das proezas do criador do site, Mark Zuckerberg, o filme que concorre neste domingo ao Oscar narra uma sequência de desentendimentos entre o jovem gênio da informática e seu sócio, o brasileiro Eduardo Severin, que culmina em um litígio judicial e no rompimento da sociedade.

Embora não se possa dizer que o final da história seja exatamente triste – os empreendedores fecham um acordo multimilionário -, o episódio do Facebook serve de alerta aos empreendedores para os riscos por trás de uma sociedade empresarial. Inexistência de contratos formais e discordância quanto aos procedimentos mais básicos do negócio foram os erros de Severin e Zuckerberg, mas uma série de cuidados são necessários antes de se escolher com quem dividir o controle de uma organização.

“Sociedade é como namoro: é preciso definir antes qual o perfil desejado para depois escolher a pessoa”, diz Rogério Vilela, professor de Empreendedorismo da Pucrs. A seu ver, muitos empresários erram ao se deixarem levar pelas ligações afetivas no processo de escolha de um novo sócio, escolhendo algum amigo ou parente – como no caso do Facebook, em que os sócios eram antes bons amigos -, mas ignoram suas peculiaridades profissionais.

Os riscos nesses casos são firmar acordo com alguém incapaz de agregar valor à nova empresa e ver uma bela amizade ruir por discordâncias quanto à gestão do empreendimento. Afinal, o ambiente corporativo consiste em tarefas e responsabilidades diferentes daquelas do cotidiano de duas pessoas que já se conhecem. E o bom relacionamento fora do escritório nem sempre se repete dentro dele.

“Ainda que possa ser emocionalmente seguro estar acompanhado por um amigo, pai, mãe ou irmão na condução do negócio, as decisões empresariais têm que se pautar pela razão, objetividade e profissionalismo”, alerta o advogado Jair Gevaerd, autor do livro Manual do Sócio (Editora Íthala). Ao recomendar frieza na escolha do sócio prospecto, Gevaerd vai além e argumenta que é melhor evitar parentes e amigos na divisão da empresa, de forma a preservar a isenção na análise das aptidões da pessoa.

Para deixar de lado afetividades e escolher corretamente o associado, é indicado estabelecer o conjunto de características desejadas. Os requisitos básicos começam pelo histórico de interesse em empreender, o que pode ser verificado pelos cursos e projetos pessoais tocados pelo potencial sócio. É fundamental que este tenha o faro do empreendedor: possua tino para negócios, capacidade de assumir responsabilidades e facilidade para superar adversidades.

Em seguida, o fundador deve conhecer quais valores deseja agregar à companhia – além do aporte financeiro, é claro. Esta etapa é importante para evitar o que a colunista da revista americana Business Week Karen Klein chamou, em artigo publicado recentemente, de “se duplicar”; ou seja, chamar para a sociedade alguém com perfil e habilidades muito semelhante ao de outro sócio.

O objetivo é que um complemente a fraqueza do outro, tonificando a capacidade de competição e gestão da empresa. Este cuidado será importante inclusive no momento de se definir o papel de cada um na organização. Se um dos sócios é bom de operação, mas não é tão habilidoso com números, deve procurar um especialista nesta área para se associar.

“É muito comum que os sócios prefiram atuar na parte comercial da empresa, mas isto geralmente deixa a organização desamparada em outras áreas”, observa Vilela. E lança uma advertência: independentemente do que farão os outros sócios, um deles precisa ser especialista na área operacional. “Isto é fundamental para a competitividade e a qualidade do serviço ou produto da empresa.”

Encontrar um parceiro para os negócios pode dar trabalho, mas geralmente é uma boa opção para a abertura de um empreendimento. Além de engrossar o investimento e garantir a segurança patrimonial pertinente a uma Sociedade Limitada, traz seu capital intelectual à companhia. “Um sócio pode agregar sua rede de relacionamento, trazer tecnologia e qualidade técnica à produção, além de auxiliar em momentos de dificuldades”, lista Viviane Ferran, supervisora de Empreendedorismo e Inovação do Sebrae-RS. “Enfim, há muitos bons motivos para firmar uma sociedade; basta ser criterioso na escolha do parceiro.”

Integridade e trajetória analisados sob a lupa

As diferenças de personalidades e de habilidades são pertinentes ao negócio, mas especialistas apontam algumas características básicas que devem ser evitadas em um sócio. Alguns comportamentos cotidianos podem mostrar até que ponto a postura de uma pessoa pode arruinar ou contribuir com um negócio.

Integridade, raiva, regras, bajulação, dedicação, otimismo e trajetória são tópicos a serem observados em um potencial sócio, diz José Emílio Menegatti, conhecido com Professor Menegatti, conferencista e especialista em Desenvolvimento Humano. Para ele, a idoneidade é fundamental, e pode-se diagnosticar comportamentos de risco em uma pessoa por diferentes infrações, como emitir nota fiscal de almoço com o valor maior para ser reembolsado pela empresa ou mentir na declaração de imposto de renda.

“Um homem desonesto com os outros, cedo ou tarde será desonesto com você ou com seus clientes”, alerta. Outro fator a ser considerado é a determinação de alguém em buscar o sucesso profissional. Menegatti conta o caso de Edson Godoy Bueno, dono da Amil, que se desfez de um sócio porque ele chegava tarde e saía cedo, e assim dava um péssimo exemplo para os funcionários.

Crucial também é avaliar os feitos de uma pessoa ao longo de sua carreira. Saber como foi o desempenho de seus projetos anteriores, qual nível de sucesso obteve em empregos anteriores, qual sua relação atual por companhias pelas quais já passou e que impressões deixou por elas pode ser uma mostra do que o potencial sócio trará à organização.

“É importante evitar o candidato com histórico de sucessivos malogros em sociedades anteriores, e fugir daqueles cujo discurso não condiz com a situação profissional ostentada”, aponta o advogado Jair Gevaerd. Para evitar “cair no conto” do candidato, examina-se a “trajetória de vida” deste antes de ouvir o que ele tem a falar.

Contratos e investimentos são necessários

A correta escolha do sócio passa pela definição de habilidades desejadas e a indiferença quanto a ligações afetivas, mas também pelo estabelecimento de normas legais e contratuais que garantam o comprometimento de cada um. Significa prever em documento informações sobre a divisão do trabalho, quantidade de investimento necessária e previsão de ações emergenciais.

A disposição de antecipar e tratar, em documentos contratuais adequados, os principais focos de tensão, sejam gerais ou específicos, também é fundamental. Um advogado pode ajudar a definir o que é mais importante ser formalizado, por isso, os empreendedores devem considerar uma assessoria jurídica e contábil um investimento inicial valioso. “Escolhido o sócio e os definidos limites, objetivos, desdobramentos e responsabilidades, deve-se documentar tudo em um competente contrato, provido das razoáveis garantias”, recomenda o advogado Jair Gevaerd.

Outro cuidado necessário é verificar se há pendências financeiras e jurídicas no passado do potencial parceiro. Não se trata de preconceito. Um sócio endividado ou sob processo pode ser obrigado a retirar fatias crescentes de capital da empresa, reduzindo o patrimônio do negócio. A dica é levantar referências e até exigir documentação sobre os antecedentes legais do futuro parceiro.

Cuidados com as finanças e os investimentos, por sinal, são o calcanhar de Aquiles de muitas sociedades que se desmancham. Por isso, todo o cuidado é necessário. Negociações sobre investimentos de cada sócio, distribuição do pró-labore, taxas de reinvestimento e outros temas relacionados precisam ser discutidos previamente e estabelecidos em contrato antes da operacionalização da companhia. Assim, evita-se que um dos sócios exija mudança nas regras quando a bola já estiver rolando.

Especialistas alertam para a importância de haver aporte financeiro de cada sócio-fundador. Por menor que seja, um investimento estimulará o sócio a “vestir a camiseta” da empresa, dedicando seu tempo e sua atenção a ela. E reduzirá as chances de que ele abandone o projeto diante das primeiras dificuldades. “A melhor sociedade é aquela em que todos sócios entrem com aporte financeiro, nem precisa ser o mesmo percentual”, observa Rogério Vilela, da Pucrs.

Um erro comum na formação de sociedades é que um empreendedor entre com capital e o outro, com trabalho. Esta medida tende a colocar quem não investiu no papel de empregado, prejudicando a relação de atribuições e cobranças. No andar do negócio, acabam sendo dissolvidas algumas das vantagens de uma boa sociedade: a transparência no relacionamento e o comprometimento com o negócio.

Um casamento que deu certo

A adoção de todos os cuidados antes de firmar uma parceria, como separação clara de tarefas, aportes financeiros de todas as partes, profissionalismo acima de afinidades, além das demais dicas listadas nesta reportagem, costuma recompensar os empreendedores com negócios prósperos. Casos conhecidos dentro e fora do Brasil apontam que sociedades bem amarradas geram mais patrimônio, estímulo mútuo aos empreendedores, inovação e conhecimento nas áreas estratégicas da companhia.

Um caso conhecido no setor de Tecnologia da Informação (TI) no Rio Grande do Sul é o da JME, empresa que atua no setor de saúde, e inclusive foi batizada com as iniciais de seus sócios fundadores, Jorge Branco, Marco Güttler e Emerson Rogério de Oliveira Junior.

Os três se conheceram ainda durante a faculdade de tecnologia, e, descobrindo afinidades profissionais, passaram a estudar e fazer os trabalhos juntos. Poucos anos depois, decidiram formar uma empresa na qual cada um trabalharia naquilo em que era melhor. Marco e Emerson demonstravam mais conhecimento técnico e criativo, enquanto Jorge exibia tino comercial e de marketing. A divisão foi feita respeitando esses talentos.
“Percebemos que todos podíamos complementar a empresa, por isso fundamos a JME”, diz Jorge Branco. “Sabíamos como cada um trabalhava, e resolvemos respeitar a área de atuação individual, embora com liberdade para propor melhorias sempre que necessário”, afirma Jorge.

Nos primeiros meses após a fundação, Émerson recebeu uma proposta profissional e deixou a JME. Marco e Jorge tocaram a barca conforme as diretrizes que haviam traçado anteriormente. Os conflitos eram resolvidos com transparência, trazidos em reunião de avaliação periódica, os novos investimentos eram compartilhados e as decisões estratégicas, unânimes.

A fórmula deu certo. Com 24 anos de mercado, a JME ampliou seu faturamento em 30% no ano passado, em relação ao anterior. Hoje, possui oito escritórios pelo Brasil, e tem em seu rol de clientes mais de 100 nomes, dentre os quais Hospital São Lucas da Pucrs, Secretaria de Saúde de Caxias do Sul e Clínica Healthy, de São Paulo. “Um dos segredos do bom desempenho da empresa talvez seja a inexistência de vínculos afetivos antes da faculdade. Ou seja, já nos conhecemos e nos fechamos em um ambiente educacional e profissional, e sabíamos exatamente o que esperar um do outro”, diz Branco.

Fonte: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=55109