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Operações de microcrédito ainda engatinham no Brasil

Modalidade representa só 0,2% dos empréstimos no país, e apenas quatro bancos têm atuação relevante, dos quais três são públicos; BC quer incentivar atuação dos privados

Léa de Luca

São Paulo - As operações de microcrédito, considerado importante instrumento de inclusão financeira pelo Banco Central (BC), ainda engatinham no país: os empréstimos dessa modalidade representam apenas 0,2% de todo o saldo de crédito do sistema financeiro nacional, equivalentes a R$ 5,3 bilhões, e estão concentrados em poucas instituições. Existem 10 bancos atuando no segmento, e juntos respondem pela maior parte do valor da carteira (91,4%), da quantidade de operações (94,1%) e da quantidade de clientes (93,5%). Desses 10, entretanto, apenas quatro são realmente ativos, sendo três públicos (Banco do Brasil, Caixa e Banco do Nordeste) e um privado (Santander).

Os dados constam do “Estudo Especial — Panorama do Microcrédito” elaborado pelo BC, a primeira “fotografia” do segmento realizada pela autoridade monetária, que pretende estimular a expansão da atividade pelas instituições privadas. O estudo foi preparado por Marcelo Andrade, técnico do Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro do BC (Desig), e revisado por Elvira Cruvinel Ferreira, chefe do Depef (Departamento de Educação Financeira) e Ailton de Aquino Santos, chefe-adjunto do Desig. Segundo Santos, o objetivo do estudo foi iniciar um banco de dados para acompanhar o setor e subsidiar possíveis políticas de estímulo ao setor.

Embora o BC reconheça que a participação majoritária dos bancos públicos explica-se pelo alto grau de complexidade da operação, que ao mesmo tempo tem margens baixas, Santos acredita que é possível —- e desejável — que mais instituições privadas abracem a causa. “O estudo apresenta dados que o BC já conhecia, mas não necessariamente eram conhecidos do mercado”, diz Santos, acrescentando que algumas informações podem estimular a entrada de novos participantes. Como exemplo, ele cita a taxa de inadimplência, que é de 5% em média: “Acredito que muitas instituições acreditavam que a taxa de atrasos era mais alta”, diz.

No total, há 102 instituições concedentes, divididas em quatro segmentos (73 cooperativas de crédito, 10 sociedades de sociedades de crédito ao microempreendedor e à empresa de pequeno porte, as SCMs, e 9 agências de fomento, além dos 10 bancos). No sistema financeiro nacional, há um total de 1.361 instituições desses quatro segmentos, dos quais 1.161 (85,3%) são cooperativas de crédito. E destas, apenas 6,3% concedem microcrédito. É a menor porcentagem dentre todos os segmentos concedentes de microcrédito, equiparada à de bancos (6,5% sobre um total de 153) e bem inferior a de agências de fomento (60% de 15 ) e de SCMs (31,3% de 32).

Os representantes do BC garantem que a ideia do estudo não é embasar nenhuma alteração nas regras em vigor — entre elas, a destinação obrigatória de 2% dos compulsórios à modalidade. Mas o acompanhamento pode ajudar o governo, no futuro, a tomar providências para aprimorar as regras. Além disso, Elvira lembra que o esclarecimento dos parâmetros para enquadramento das operações na modalidade pode ajudar os bancos a incluir novas, engrossando a base de dados futuramente. No entanto, o BC não espera para já nenhuma movimentação relevante no saldo das operações.

Até setembro, o Banco do Brasil (BB) já havia desembolsado R$ 4,03 bilhões, com 2.375.534 operações contratadas desde o lançamento do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO) em setembro de 2011, atendendo 1.523.979 clientes, a maioria pessoas físicas. Hoje, o BB tem 800 mil clientes ativos e uma carteira em R$ 1,4 bilhões. “A atuação do BB possibilitou a ampliação do conhecimento de microfinanças, e viabilizou as competências e as bases necessárias para passar a atuar por meio de parcerias”, diz Valmir Martins Sobrinho, gerente executivo da diretoria de micro e pequenas empresas do banco.

O BB acaba de obter aprovação para iniciar a operação da Movera, controlada pela Alelo, coligada do BB e Bradesco. A Movera é uma empresa de consultoria que vai prestar o serviço de orientação e gestão da carteira de microcrédito do BB, mas também para outros bancos interessados. No primeiro ano de atuação (2015), a meta é realizar 80 mil operações no valor total de R$ 200 milhões. “A Movera tem finalidade específica no mercado de microfinanças e vai atuar por meio de agentes de microcrédito contratados nos lugares onde os microempreendedores estão. Temos uma tecnologia de georeferenciamento para identificar os que tem potencial para tomar o microcrédito mas está fora do sistema, nas mãos de financeiras e factorings, que tem custo mais elevado”, diz Martins.

Além de gerar mais receita de prestação de serviços para o BB, Martins acredita que a Movera vai melhorar a gestão do cliente e permitir a redução da inadimplência, viabilizando a sustentabilidade do empreendimento. Quando a Movera estiver operando plenamente, Martins espera que 85% do microcrédito do BB seja realizado por meio da empresa. Outros 5% serão realizados a partir de parcerias e 20% na rede de agências — para empreendedores formalizados, que faturam até R$ 120 mil por ano.

O Santander, que tem o maior programa privado de microcrédito do país, com 5% do mercado, segundo a instituição, já investiu R$ 2,5 bilhão desde 2002, 306 mil beneficiados em 555 municípios em 11 estados. “A metodologia de oferecer crédito aliada à orientação financeira é determinante para sucesso do empreendedor. A relação de confiança e o atendimento próximo são pilares determinantes no sucesso destes empreendedores”, afirma Jerônimo Ramos, superintendente de Microcrédito do Santander. Neste ano, até outubro, a carteira somava R$ 285 milhões, 9% mais do que havia em igual período do ano passado, informou. As taxas de juros, como referência, são de 2% ao mês, e o prazo de até 24 meses.

A Caixa Econômica Federal tem uma empresa nos moldes da recém lançada Movera, a Caixa Crescer. Hoje, 75% das operações de microcrédito são realizados por intermédio dela. O banco operacionaliza o Microcrédito Produtivo Orientado (MPO) no âmbito do Programa Crescer desde agosto de 2011, com foco nos beneficiários do Programa Bolsa Família. O volume de contratações acumuladas de 2011 a 2014 chega a um total de R$ 3,17 bilhões, sendo que somente em 2014 foram liberados R$ 996,16 milhões em recursos financeiros, segundo a superintendente nacional de Estratégia para micro e pequeno empreendedorismo da Caixa, Eugênia Regina de Melo.

Para o MPO Crescer, os juros são de 5% ao ano com taxa de abertura de crédito (TAC) de 1%, pelo prazo de 4 a 24 meses. Desde setembro, o banco iniciou as contratações para o produto Giro Caixa Orientado, na mesma metodologia do MPO, com taxa de 2,40% e TAC de 3%. A Caixa também oferece o Crediário Fácil que financia eletrônicos, eletrodomésticos, móveis, material de construção, turismo, entre outros.

Já o Itaú, que herdou a Microinvest do Unibanco, tem hoje uma carteira de aproximadamente R$ 360 milhões concedidos em microcrédito produtivo orientado, direta ou indiretamente — por meio de parceiros que repassam o dinheiro aos empreendedores. Hoje, o perfil da carteira de empréstimos diretos concedidos pelo banco é composto por 62% de clientes em São Paulo. A maioria tem idade entre 36 e 45 anos, são casados, sem nível superior de ensino, com renda per capita de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil. O cliente tem até 12 meses para quitar o crédito e os juros vão de 3,9% a 3,3% ao mês, diminuindo a cada renovação. “Acreditamos que existe espaço para ampliar a oferta se o limite fosse ampliado -hoje o teto é R$ 15 mil”, diz a diretora de marketing institucional do Itaú, Andrea Pinotti.

Fonte: http://brasileconomico.ig.com.br/financas/2014-11-28/operacoes-de-microcredito-ainda-engatinha-no-brasil.html