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Um pilar na economia?

Empresários e investidores se animam com o nome de Joaquim Levy para assumir a Fazenda no lugar de Guido Mantega. Ele tem as credenciais necessárias para resgatar a credibilidade da política econômica

Por: Luís Artur Nogueira

Ortodoxo, graças a Deus: o carioca Joaquim Levy é bem visto pelos investidores para comandar a economia

Ortodoxo, graças a Deus: o carioca Joaquim Levy é bem visto pelos investidores para comandar a economia ( foto: Leo Pinheiro)

Às quatro da tarde da sexta-feira 21, havia um frisson nas corretoras de valores e tesourarias de bancos. A ordem era comprar ações. O índice Bovespa, que operava em alta de 3%, saltou para 5% em poucos minutos. Os papéis da Petrobras dispararam 11%. A euforia era fruto da notícia da escolha do ex-secretário do Tesouro Nacional Joaquim Levy, 53 anos, para o cargo de ministro da Fazenda. O Palácio do Planalto adiou o anúncio oficial, previsto para aquela noite, mas os investidores não tinham mais dúvidas. Sob as bênçãos do ex-presidente Lula, Levy deve comandar a economia no segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, em substituição a Guido Mantega.

Outras peças do xadrez econômico já estão no tabuleiro. O economista Nelson Barbosa, que deixou a secretaria executiva do Ministério da Fazenda no ano passado, ficará com o Ministério do Planejamento. O atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, permanece no cargo. O senador Armando Monteiro (PTB-PE), ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), comandará a pasta do Desenvolvimento e a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) será a ministra da Agricultura. Ao menos, é o que se espera em Brasília.

Falta a presidenta Dilma oficializar as escolhas e, na montagem da equipe econômica, definir os novos nomes dos presidentes do BNDES e do Banco do Brasil. Carioca de fala mansa e firme defensor de suas ideias, Levy é presidente da Bram, a gestora de recursos do Bradesco, e tem sob seu comando investimentos de R$ 304 bilhões. Economista e engenheiro naval, tem um belo currículo no serviço público. Trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 1992 e 1999 e foi economista visitante do Banco Central Europeu (BCE) em 1999 e 2000.

Sua atuação em Brasília começou no governo Fernando Henrique Cardoso. Em 2001, ele foi nomeado secretário-adjunto de política econômica do Ministério da Fazenda e, em 2001, economista-chefe do Ministério do Planejamento. A vitória do PT nas eleições de 2002 não o afastou do poder. Em janeiro de 2003, ele foi designado secretário do Tesouro, posição que exerceu até março de 2006. Passou os meses seguintes como vice-presidente de finanças do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mas se desligou no fim do ano por ter sido nomeado secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro pelo governador Sérgio Cabral.

Ficou no cargo até junho de 2010, quando passou a dirigir a Bram. Recentemente, Levy assumiu a presidência da BRAiN, entidade empresarial que luta para melhorar a imagem do País no exterior. Com esse currículo, o mercado, obviamente, ficou encantado com a escolha. “É um excelente nome, com experiência comprovada e trânsito no empresariado”, diz Ricardo Lacerda, presidente da BR Partners. “Ele reúne as credenciais necessárias para elevar a confiança dos agentes econômicos e buscar o equilíbrio na condução do futuro econômico-social do Brasil”, afirma Amos Genish, presidente da GVT.

“É um profissional testado e fora de partidos políticos”, acrescenta Roberto Garcia, presidente da Kalunga. “Se for uma pessoa capaz de manter a condução da economia isenta da influência política, como parece ser o caso, pode ser um bom nome”, aposta José Roberto Müssnich, CEO do Atacadão, braço atacadista do grupo Carrefour. A reação positiva reflete a expectativa de que os ajustes necessários para recolocar a economia nos trilhos serão executados. “A escolha surpreende positivamente e dá alento aos que esperavam uma guinada de volta na direção do bom senso”, diz o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, sócio da Rio Bravo Investimentos.

A favor de Levy está o fato de que ele integrou a elogiada equipe do ministro Antonio Palocci que, em 2003, promoveu uma série de reformas no primeiro ano do governo Lula e manteve o curso da estabilidade do Plano Real. Segundo Tony Volpon, chefe de pesquisas para mercados emergentes da corretora Nomura Securities, em Nova York, Levy é bastante conhecido como um formulador de políticas ortodoxas e pró-mercado. Os analistas aguardam ansiosamente o anúncio de um plano fiscal que possa sinalizar a estabilização da dívida pública nos próximos anos.

“Esse anúncio seria a chave para restaurar a confiança do mercado”, diz Volpon. Para Ricardo Amaral, CEO nacional da Royal Caribbean, o novo ministro precisa atuar harmoniosamente com os agentes econômicos. “Isso não necessariamente significa que ele tenha de fazer tudo o que o mercado pede, mas tem de, ao menos, estar perto dele”, diz Amaral. As contas públicas no vermelho são uma ameaça ao selo de bom pagador obtido pelo Brasil em 2008 junto às agências de classificação de risco de crédito. Se vier a perdê-lo, o País certamente enfrentará uma saída de investidores que só podem alocar recursos em países com o carimbo de grau de investimento.

“Comparado com os seus pares, o Brasil tem uma dinâmica da dívida pública pior, com um prazo mais curto e um custo mais alto”, diz Regina Nunes, presidente da agência Standard & Poor’s na América do Sul. “A qualidade do ajuste fiscal é tão importante quanto o tamanho dele.” Em outras palavras: não será com cortes em investimentos que o governo obterá sucesso. O novo homem forte da economia conhece muito bem esse assunto. Em janeiro, Levy disse à DINHEIRO que “a mensagem do mercado para o governo é que um desempenho fiscal bem entendido e bem amarrado continua sendo muito importante para evitar uma gangorra no momento em que as condições lá fora estão mudando”.

E emendou: “Quanto mais sólido o desempenho fiscal, menor vai ser a carga em cima dos juros.” As desonerações fiscais que foram promovidas nos últimos anos também precisarão ser revistas. Por determinação da presidenta, o alívio fiscal na folha de pagamentos das empresas é intocável. Porém, a redução do IPI para os carros vai acabar na virada do ano, anunciou o ministro Mantega, na quinta-feira 20. Ministro mais longevo no cargo, Mantega adotou uma política contracíclica eficiente nos governos Lula e Dilma, evitando os efeitos externos da grave crise dos países desenvolvidos a partir de 2008.

Mas essa política precisa mudar para o país recuperar o crescimento econômico (a estimativa é de um “pibinho” de 0,3% em 2014) e os investimentos. Caberá a Levy fazer o ajuste de rota, se Dilma o confirmar no cargo nesta semana, como se espera. A lista de desafios que o novo titular da Fazenda e sua equipe terão vai muito além da área fiscal. A inflação elevada, que continua atada perigosamente ao teto da meta (6,5%), precisa ser combatida com rigor. Tombini terá mais uma oportunidade para perseguir o centro da meta de 4,5%, missão que ele não cumpriu em nenhum dos últimos quatro anos e lhe garantiu a alcunha de “pombo do Copom”.

Para isso, o núcleo econômico terá de desarmar uma bomba inflacionária criada pelo próprio governo, que represou preços de energia, combustível e transporte público. A política cambial, que foi veladamente utilizada para segurar a inflação, também precisará ser corrigida gradualmente. É o terceiro pilar do chamado tripé econômico, que prevê superávit primário, inflação na meta e câmbio flutuante. “Não há uma bala de prata”, diz Gesner Oliveira, economista e sócio da GO Associados. “O que a sociedade espera é uma estratégia consistente, metas realistas e exequíveis.”

A missão mais importante para Levy, que decorre das demais, é convencer o empresariado de que o futuro é promissor. O clima para os negócios não está bom nem mesmo na região Nordeste, onde o Produto Interno Bruto (PIB) vinha crescendo acima da média nacional. Segundo um levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), na primeira quinzena de novembro, o empresariado da região está pessimista pela primeira vez em sete anos. Numa escala de zero a 100 pontos, o índice de confiança do empresário industrial do Nordeste caiu para 48,3 pontos.

O patamar abaixo de 50 pontos é inédito e representa um quadro de pessimismo. No cálculo nacional, que inclui as cinco regiões, a situação é ainda mais desanimadora. O índice de 44,8 pontos é o menor em 15 anos, quando a entidade iniciou sua série, superando o pânico provocado pela crise global. Na avaliação do gerente executivo de política econômica da CNI Flávio Castelo Branco, a retração do PIB industrial em 2014 contribui para a falta de confiança do setor produtivo. “Infelizmente não há como garantir que o índice de confiança já tenha chegado ao fundo do poço”, diz Castelo Branco.

Os aplausos do mercado à decisão de Dilma têm como premissa um mínimo de autonomia à equipe econômica. “Tem nome, envergadura e credibilidade para fazer com que o ministério se reaproxime do mercado em geral”, diz Cristiano Koga, diretor-superintendente da TNT. “É a credibilidade que esse governo está precisando”, diz Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria. A principal crítica feita durante os últimos quatro anos foi que a política econômica era pilotada a partir do terceiro andar do Palácio do Planalto, onde fica a sala da Presidência da República.

A escolha de Levy para a Fazenda é o desfecho de uma novela que durou quatro semanas e teve como enredo a falta de planejamento, a inabilidade gerencial e uma execução desastrada – três temas que certamente poderiam constar da grade curricular de qualquer MBA executivo de gestão empresarial. Se tivesse seguido algumas regras básicas de uma boa gestão, a presidenta da República teria evitado um constrangedor “não” do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, na quarta-feira 19, e teria fortalecido o seu escolhido, Joaquim Levy, que assumirá o cargo com o carimbo de plano B de Dilma.

Convencida por Lula, a presidenta resolveu convidar Trabuco na presença do presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro de Mello Brandão. Ambos foram a Brasília na quarta-feira. Na conversa com Dilma, Brandão deixou claro que Trabuco seria o seu sucessor, mas aceitar ou não um convite era uma decisão pessoal. Gentilmente, Trabuco agradeceu e recusou o convite. O surpreendente nessa história é imaginar que a presidenta da República tenha se arriscado a receber um “não” que, obviamente, se tornaria público. Uma execução eficiente teria previsto um emissor graduado que sondaria previamente Trabuco.

Há três semanas, um interlocutor de Lula, que goza de muito prestígio no Planalto, disse à DINHEIRO que “Trabuco jamais aceitaria o cargo, pois o foco dele é se tornar presidente do Conselho do Bradesco”. O interlocutor estava certo. A falta de planejamento já podia ser constatada desde o período da campanha eleitoral. Enquanto o seu principal adversário, o senador tucano Aécio Neves, anunciara previamente que o economista Arminio Fraga seria o seu ministro da Fazenda, a então candidata Dilma se recusava a tocar no assunto. Limitou-se a demitir publicamente o ministro Mantega, que, chateado, ameaçou antecipar sua saída do governo.

Quando questionada sobre o mistério, a petista dizia que nomear ministros antecipadamente dava azar e poderia passar uma mensagem arrogante de que o jogo já estaria ganho. Para quem crucificou a candidata Marina Silva por associar-se a uma “representante dos banqueiros” (a educadora Neca Setubal, acionista do Itaú), Dilma surpreendeu e optou por uma escolha ortodoxa entre nomes do mercado financeiro considerados para a Fazenda, como Trabuco e Meirelles. A economia em dificuldades demandava uma mudança de rota. Sobre isso, o perfil do novo ministro já diz muito.
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Quer receber? Pressione pelo trambique fiscal

Por Carolina OMS

O governo decidiu valer-se de um deplorável instrumento de pressão para garantir que o Congresso aprove a mudança na meta de superávit primário: segurar os pagamentos devidos às empresas privadas. Os compromissos só serão honrados após a alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que permitirá o abandono da meta fiscal deste ano. No caso das empreiteiras que têm contratos com o Dnit, o saldo devedor já chega a R$ 1,2 bilhão e, até o fim de novembro, será de R$ 1,9 bilhão.

O presidente da Associação das Empresas de Obras Rodoviárias (Aneor), José Alberto Pereira Ribeiro, conta que conversou com o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, e ouviu dele que a “saída do governo para saldar esses compromissos é a mudança na meta fiscal”. A Aneor, que representa cerca de 300 empresas, decidiu, na quarta-feira 19, apoiar o projeto de lei que altera o superávit de 2014. “Mesmo não concordando com a quebra da responsabilidade fiscal, não podemos conviver com a hipótese de não receber”, diz Ribeiro.

A pressão do Planalto para aprovar o projeto, que permite o abatimento sem limites dos investimentos e desonerações, é grande. “Se o Congresso não construir essa flexibilização, nos resta parar investimentos”, diz Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil. “É inaceitável essa chantagem às empresas”, afirmou o PSDB, em nota divulgada na quinta-feira 20. Na prática, será testado se a pressão deu certo para aprovar o trambique fiscal.

Fonte: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20141121/pilar-economia/210634.shtml